2026 não será gentil e isso exige maturidade do empreendedorismo feminino
Por Claudia Antunes
Eu não espero facilidades em 2026. E talvez essa seja a primeira grande diferença entre o discurso otimista que costuma acompanhar o empreendedorismo feminino e a realidade que eu observo, vivo e analiso todos os dias. O próximo ano não será sobre “empoderamento” no sentido raso da palavra. Será sobre estrutura, decisão e permanência.
Durante muito tempo, venderam às mulheres a ideia de que empreender era sinônimo de liberdade imediata. Na prática, o que vi foi uma geração inteira de mulheres sobrecarregadas, romantizando o cansaço, sustentando negócios frágeis e sendo chamadas de “fortes” justamente porque ninguém as amparava. Isso não é protagonismo. É sobrevivência.
2026 escancara esse limite.
O empreendedorismo feminino chega a um ponto em que não basta existir. É preciso funcionar. Negócio que depende exclusivamente da energia da fundadora não é sustentável é vulnerável. E isso precisa ser dito com honestidade, ainda que doa.
Chega de improviso como identidade
Existe uma narrativa perigosa de que a mulher “dá conta de tudo”. Dá, sim mas a que custo? Vejo muitas empreendedoras altamente competentes presas em estruturas amadoras, sem processos, sem números claros, sem estratégia de crescimento. Não por incapacidade, mas porque nunca foram incentivadas a ocupar o lugar da decisão fria, técnica, impopular quando necessário.
Em 2026, improviso não será virtude. Será risco.
Ou o empreendedorismo feminino amadurece em gestão, finanças e posicionamento, ou continuará girando em círculos, celebrando faturamentos baixos como grandes vitórias enquanto o mercado avança sem piedade.
A falsa inclusão do mercado
Outro ponto que me incomoda profundamente é a forma como o mercado “inclui” mulheres desde que elas não incomodem. Há espaço para a mulher empreendedora inspiradora, mas não para a mulher que cobra, que negocia duro, que fala de dinheiro sem pedir desculpa.
Ainda existe um pedágio invisível: para ser aceita, a mulher precisa ser simpática, flexível, compreensiva. Em 2026, esse modelo entra em colapso. Quem não sustentar autoridade, perde espaço. Quem não dominar números, será engolida. Quem não entender poder, continuará sendo usada como vitrine.
Tecnologia não é moda, é sobrevivência
Também não compro mais o discurso de que tecnologia é “opcional”. Não é. Empreendedora que não aprende a usar ferramentas digitais, automação e inteligência de dados ficará refém do próprio tempo e o tempo da mulher já é escasso demais.
Mas faço uma crítica clara: tecnologia sem estratégia vira só mais uma tarefa na agenda. 2026 exige uso inteligente, não adesão cega a tendências.
Redes femininas: apoio ou zona de conforto?
Acredito profundamente na força das redes femininas. Mas também faço um alerta: rede que só acolhe e não confronta vira zona de conforto. O futuro do empreendedorismo feminino passa por coletivos que formem, cobrem, profissionalizem e articulem poder não apenas que validem emoções.
Sororidade sem exigência não transforma estrutura.
O que eu espero de 2026
Espero um ano mais duro, mais técnico e menos indulgente. E, paradoxalmente, mais honesto. Um ano em que o empreendedorismo feminino pare de pedir licença para existir e comece a se posicionar para permanecer.
Não precisamos de mais discursos motivacionais. Precisamos de estratégia, leitura de cenário, coragem para rever modelos falidos e maturidade para assumir que crescer dói.
2026 não será sobre provar que somos capazes. Isso já está mais do que provado. Será sobre decidir quem está preparada para sustentar o próprio crescimento sem romantização, sem aplauso vazio e sem pedir permissão.
E isso, sim, é protagonismo real.








