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A vingança feminina e o desconforto de Hollywood

Hollywood sempre celebrou a vingança como um dos grandes motores narrativos do cinema. No entanto, esse fascínio parece ter limites bem definidos quando o desejo de retaliação parte de mulheres. O problema não é o ato de se vingar, mas quem ocupa esse lugar na história. Enquanto homens vingativos são exaltados como anti-heróis complexos e até admiráveis, mulheres que seguem o mesmo caminho costumam ser retratadas como instáveis, perigosas ou moralmente desviantes.

O duplo padrão é visível em décadas de produções. Personagens masculinos como os de John Wick ou Gladiador transformam a vingança em símbolo de honra, justiça e força. Já no caso feminino, a narrativa frequentemente exige punição. Essas personagens quase sempre precisam morrer, enlouquecer, perder tudo ou demonstrar arrependimento para que sua trajetória seja considerada aceitável. A mensagem implícita é que a raiva feminina precisa ser contida.

Quando Hollywood autoriza a vingança feminina, ela vem acompanhada de justificativas extremas. Filmes como Promising Young Woman (2020) mostram uma protagonista movida por traumas profundos, como a violência sexual, mas ainda assim a história exige sacrifício total para validar sua revolta. A vingança, nesse caso, só se completa por meio da autodestruição, reforçando a ideia de que não há espaço para mulheres vingativas que simplesmente sigam em frente.

Outras obras ilustram esse controle narrativo. Em Kill Bill (2003–2004), Beatrix Kiddo é eficiente, fria e letal, mas seu triunfo é atravessado por perdas irreparáveis, solidão e um passado que nunca a abandona. Já em Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), Amy Dunne assume o papel da mulher estrategista e vingativa sem pedir desculpas, e justamente por isso o filme a enquadra como vilã monstruosa, não como símbolo de justiça.

Produções mais recentes continuam explorando esse desconforto. Em The Nightingale (2018), a vingança feminina surge como resposta à brutalidade colonial e sexual, mas é marcada por sofrimento constante. Em Pearl (2022), a raiva reprimida de uma jovem mulher se transforma em violência extrema, associando frustração feminina à loucura. Mesmo em séries como Big Little Lies e The Handmaid’s Tale, a vingança feminina aparece cercada de dor, culpa e consequências pesadas, raramente como libertação plena.

O ponto central é o medo da mulher com raiva. Hollywood se mostra particularmente desconfortável com personagens femininas calculistas, frias e vitoriosas, que não buscam redenção nem aprovação moral. Em uma indústria historicamente dominada por homens, persiste a expectativa de que mulheres sejam compreensivas, empáticas e perdoadoras. A vingança feminina rompe esse papel social e, por isso, é tratada como ameaça.

Ainda assim, há sinais de mudança. Filmes independentes e produções contemporâneas começam a apresentar mulheres mais conscientes de sua fúria e menos dispostas a pedir desculpas por ela. No entanto, essas narrativas ainda são exceções e frequentemente suavizadas por discursos morais que tentam justificar ou limitar a violência feminina.

Entre os principais filmes que melhor retratam esse embate entre vingança e gênero, destacam-se Kill Bill, Promising Young Woman, Gone Girl, The Nightingale, Pearl, Hard Candy e Carrie. Todos, à sua maneira, revelam não apenas histórias de vingança, mas o profundo desconforto cultural diante de mulheres que se recusam a perdoar.

Em resumo, Hollywood não odeia a vingança. O que ela teme é a mulher que não aceita o papel da conciliação, que transforma sua raiva em ação e, sobretudo, que vence sem culpa. Enquanto a vingança masculina segue sendo celebrada como heroica, a feminina continua sendo vigiada, punida ou patologizada, um reflexo claro dos limites ainda impostos às mulheres dentro e fora das telas.

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